COM SANTO ANTÓNIO NA BAGAGEM

Gonçalo Cadilhe

Comecei a ler o novo livro de Gonçalo Cadilhe por uma daquelas coincidências originadas pelo Facebook. Vi uma entrevista do escritor na televisão e compreendi o conteúdo da sua nova obra: seguir os caminhos percorridos por Santo António, um dos santos mais queridos de Lisboa e, pelos vistos, de várias cidades da Europa por onde passou.

Nunca soube grande coisa sobre este. Apenas que é uma figura religiosa emblemática da cidade onde nasci e que todos os anos comemoramos o seu dia – 13 de junho – com muita festa popular.

Nunca liguei qual a sua natureza religiosa (franciscana, tenho agora a certeza), onde tinha estado, o que tinha feito. Por isso, conhecer melhor Santo António, num contexto de viajante, foi mais que razão para comprar o livro de Cadilhe.

Foi a primeira obra que li deste autor, apesar de durante anos este ser considerado como o maior (ou pelo menos o mais conhecido) escritor de viagens da atualidade. Não digo português, porque isso merecia um longo debate. Por tal, ia com tábua-rasa em relação a opiniões formadas sobre a sua escrita.

Posso dizer que li “Nos Passos de Santo António” numa semana e isto sem ler todos os dias.

Acabei de descobrir que a lavandaria é um local ótimo para colocar a leitura em dia 😉

A leitura é de fácil consumo e com isto não estou a denegrir o autor. Pelo contrário, confundem-me livros em que os escritores têm que estar constantemente a dar provas que são detentores de elevadíssimo conhecimento da língua portuguesa.

Neste livro em concreto, para mim, Cadilhe começou bem, contando a sua aventura, enquadrando o leitor no tema e descrevendo os locais por onde ia passando ou as pessoas com que se ia cruzando. Mas, já para o final, perdeu-se no enredo da história de Santo António, passando para segundo e até terceiro plano o local onde supostamente estaria a narrar determinado ponto do livro.

Eu compreendo que pesquisar a vida do santo, todo o volume de informação obtida, quer dele, quer das várias épocas que passou, pode ser avassalador. Mas o propósito do livro – um livro de viagens – perde-se nos últimos capítulos.

Talvez porque, como ele mesmo revelou no último capítulo, estava a fazer-se tarde e os prazos com a editora tinham que ser cumpridos. Sinto que tanto ficou por ser dito das localidades para onde Cadilhe viajou.

Outro aspecto que para mim não fez sentido foi o despejar de imagens no interior. Temos dois grandes blocos de fotografias, colocadas todas juntas. Não faria mais sentido que as imagens pudessem estar distribuídas de acordo com o momento do livro onde estes locais são mencionados?

Nessa mesma entrevista que vi, Gonçalo Cadilhe confirmou que foi contactado pela Câmara Municipal de Lisboa para fazerem um documentário baseado no seu livro. Acho ótima a ideia. Até porque penso que as descrições que considero estarem em falta a partir de certo momento no livro poderão ser colmatadas pela imagem em movimento. Isto, desde que Cadillhe não tome o lugar de José Hermano Saraiva, sendo historiador ao invés de viajante.

O que gostei mais do Livro

  • A linguagem simples, de fácil leitura
  • Ter aprendido um pouco mais sobre a vida do Santo António
  • Ter ficado a conhecer certos detalhes de viagem, como, por exemplo, que existe alguém que acredita que “quando espiramos o coração pára de trabalhar” ou que a ligação à Sicília faz-se de comboio… dentro de um ferry.

O que não gostei do Livro

  • As descrições dos locais, os detalhes experienciados pelo autor, terem sido relegados para segundo plano a partir de metade do livro
  • As imagens despejadas em blocos

Claro que agora fiquei curiosa por conhecer mais algumas obras deste autor. Acredito que poderão ser muito diferentes, se retirado o peso de estar a escrever sobre um figura da história religiosa de Portugal e da própria Europa. Como Cadilhe, o viajante e não como Cadilhe, o biógrafo.

Já leram “Os Passos de Santo António”? E outras obras do Gonçalo Cadilhe? Gostaria de saber a vossa opinião na caixa de comentários em baixo.

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2 comments

  1. Confesso que ainda não li este livro, apesar de já lhe ter pegado umas quantas vezes (e a outros do autor). Gostei de ler a tua opinião e confesso que concordo plenamente, a lavandaria é o melhor local para ler! haha

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