Uma Viagem Por Terras Sem Sombra

Terras Sem Sombra Lands Without Shadow

O convite apareceu inesperado. O Terras Sem Sombra estava prestes a começar e a oportunidade surgia para acompanhar o primeiro fim de semana do festival.

Por incrível que pareça, apenas recentemente conheci o Terras Sem Sombra e o seu conceito. Incrível porque esta é a 15ª edição e nunca havia despertado para este evento.

Mas afinal, o que é o Terras Sem Sombra? É um festival realizado por várias cidades e vilas no Alentejo que, praticamente fim de semana-sim, fim de semana-não, convida as pessoas a irem conhecer uma localidade alentejana, quer sendo através de atividades de património, que podem envolver tradições locais, como por momentos musicais — a maioria realizados em igrejas — e iniciativas locais de biodiversidade.

Assim, fiz a mala e lá fui eu, rumo à Vidigueira, a caminho da promessa de um dos mais famosos pães de Portugal, das melodias de um incrível coro norte-americano e das bonitas margens do Rio Guadiana.

Viver a Vidigueira no Terras Sem Sombra

Para dizer a verdade, nunca havia posto os pés na Vidigueira. Quando penso e viajo até ao Alentejo, é quase sempre para o litoral ou para ir ao encontro de cidades maiores, como Évora, por exemplo. Curiosamente, o Baixo Alentejo tem aparecido pouco no meu radar. Por isso, foi com muita expectativa que pisei terras da Vidigueira.

Casa da Vidigueira House

O Alentejo está ali bem espelhado. O casario baixo, a tranquilidade nas ruas, a curiosidade por quem passa, o bom dia ou boa tarde que recebemos de um estranho com quem nos cruzamos. O ritmo abranda por ali e que bem que sabe.

O Pão que a Vidigueira amassou

Logo começava então a primeira ação do fim de semana do Terras Sem Sombra: conhecer o pão da Vidigueira através da visita a padarias locais.

Museu da Vidigueira Museum

A paragem inicial foi no museu da vila, um tributo às raízes e tradições daquela terra alentejana e onde foi feita uma introdução ao pão local e ao projeto que tem sido desenvolvido no âmbito da sua valorização. Um trabalho que envolveu estudos de hábitos de consumo, a criação de grupos de trabalho, de painéis de provadores. Foram feitas provas sensoriais, estudadas caraterísticas e métodos de confeção, num desafio que parece não ter fim num país onde o pão é um dos principais alimentos à mesa.

“Valorizar o pão e passar a consciência dessa importância às gerações mais jovens” tem sido o objetivo.

Uma vez feitas as apresentações era altura de visitar as padarias e aqueles que todos os dias nelas trabalham.

Fizemo-nos à rua, rumo à padaria artesanal de Ti’Joana ou, para ser mais correta, à Padaria D’Avó.

Artesanato Crafts

Mas numa terra pequena, onde as portas estão muitas vezes abertas, não resistimos a entrar na oficina de Manuel Carvalho, enfeitiçados pelas peças de artesanato em barro expostas em inúmeras prateleiras. Faz arte há 25 anos, mas conta que, na verdade, é o fotógrafo da Câmara Municipal da Vidigueira e que aquele é o seu grande passatempo. Rui Raposo, presidente da autarquia, assim o confirma, com ar de orgulho na sua gente.

Sem muito tempo a dispensar — porque a Ti’Joana está à nossa espera — partimos rumo à primeira padaria, mas com a noção de que o Terras Sem Sombra é isso mesmo: conhecer as artes da terra e as pessoas que lhe dão forma.

50 anos de sabedoria local

De facto, Ti’Joana já nos aguarda. Ela e a filha, a nossa anfitriã. Mas a matriarca rapidamente chama a si as atenções. Sentada numa poltrona, naquela pequena sala familiar, que é também ponto de passagem para a cozinha, começa num sem parar de histórias. E, nós, os participantes deste festival tão peculiar, rodeamo-la que nem crianças a ouvir contos de embalar.

Padeira Vidigueira Baker

“Isto era da minha bisavó e depois foi da minha avó Vitória. Tinha forno e cozia para as freguesas. Só podia cozer para quatro freguesas, porque o forno levava quatro tabuleiros de pão. A vida da minha avó foi sempre aquilo. O meu avô era mateiro [lenhador que trabalha na mata], ia à lenha com três burrinhos. Punha seis fechos de lenha em cima dos burrinhos. Vinha todos os dias com aqueles burrinhos carregados de lenha para o forno. Fazia serras de lenha no quintal. Tinha cinco filhas e um filho. Eu trabalhava no forno com a minha avó. A minha avó trabalhava todo o dia e chegava à noite ia deitar-se um bocadinho e ficava o meu avô a atender as freguesas.” As histórias sucedem-se e D. Joana diz ainda: “Eu deu-me cá um dia a veneta de fazer um forno, mandei-o construir e aqui estou a trabalhar há quase 50 anos.”

Gracinda, a filha, põe cobro à conversa. Afinal, aquela gente estava ali para perceber como se faz o pão naquela casa e a mãe muito possivelmente tem histórias para contar até se fazer noite.

Começa a explicar todo o processo, que, entre tempos de produção e descanso da massa, pode bem chegar a atingir as 5 horas. Falam-se dos truques — como o acrescentar raspas de batata — ou das crenças, que envolvem lengalengas como a reza para trazer mais clientes: “Deus te aumente, Deus te acrescente, que é para dares para muita gente.”

Da Ti’Joana seguimos rumo à Peninsular, uma padaria mais moderna.

Por aqui, todo o processo é igual ao mostrado na padaria artesanal, mas muda (e muito!) a dimensão da produção.

Pão da Vidigueira Bread

“O forno da D. Joana leva supostamente 20 pães, o meu leva 200. Ela consegue amassar 10 kg de farinha, eu consigo amassar 150 kg. Mas todo o processo, todos os ingredientes, é exatamente igual. A forma de trabalhar a massa é igual. A única diferença é que eu tenho que ser mais rápido porque a quantidade de farinha amassada é maior”, explica o responsável.

Apesar da modernidade que por ali existente, certos processos continuam a ser manuais, para bem do pão da Vidigueira: “A maioria das padarias tem uma máquina que corta a massa. Nós já tentámos, mas não gostámos. A máquina aperta muito a massa e o pão da Vidigueira quer-se aberto. Para os padeiros da Vidigueira, pão apertado é pão de cão, é pão mal feito. Pão apertado qualquer um faz. Agora, deixar o pão com bastantes olhos, aí já requer outra ciência.”

Música dos Céus

Do pão vamos para o vinho. Não estivéssemos nós na Vidigueira. Passamos o resto do dia a conhecer o vinho da talha, Património Cultural Imaterial da UNESCO, e uma das quintas mais notáveis do concelho. O tradicional e o moderno de novo a partilhar aquelas terras alentejanas.

Vamos até ao Telheiro Artesanal de António Rocha, que nos explica que o sucesso de uma talha tem muito a ver com a qualidade do barro que se utiliza e ele tem estado numa busca incessante pelo melhor material.

Construtor de Talhas Amphoras

“Estas foram algumas experiências que fiz. Mas ainda está tudo muito no início. Vou fazendo e aprendendo. Agora estou testando o melhor barro. As talhas médias já estão boas, mas as grandes ainda não estão a 100%. Não estão perfeitas e eu estou a estudar”, conta.

Pessoa humilde, que na sua arte e paixão pelas talhas procura a perfeição, é no meio dos utensílios artesanais que se sente em casa.

Ainda nenhuma das talhas que fez, está a uso, porque o Sr. Rocha prefere testar tudo muito bem primeiro para que o seu produto seja certificado e tenha a garantia de qualidade.

Da talha passamos ao vinho engarrafado e à Quinta do Quetzal, um produtor de referência na região, com uma extraordinária galeria de arte contemporânea.

Acabamos a tarde a experimentar os vinhos retirados das já conhecidas talhas na Adega Zé Galante.

Adega Wine House Vidigueira

“Existem quatro qualidades: tinto, branco, palheto e doce. Este último, resultado da paragem da fermentação com recurso à aguardente,” explica o Sr. Galante, convidando-nos a sentar a uma mesa farta de iguarias regionais: queijos, chouriços, esses e, claro está, pão da Vidigueira. “Venha de lá mais desse doce”, dizia eu, que foi o que mais me conquistou.

De estômago reconfortado chegou o momento musical do primeiro fim de semana do Terras Sem Sombra. Na nave da Igreja Matriz de São Cucufate, em Vila de Frades, ecoaram as vozes femininas do grupo coral norte-americano Spelman College Glee Club. Um coletivo de estudantes oriundo da Geórgia, que cruza música litúrgica com aspetos melódicos mais irreverentes. Um espetáculo que procurou prestar homenagem àquele património religioso e que cativou a massa de público que ali se encontrava. Tantos que o padre daquela igreja chegou a desejar que fossem ao mesmo número nos dias normais de missa.

Spelman College Glee Club in Vidigueira

Conhecer a terra e o rio

Depois de uma noite que acabou em desgarrada de Cante Alentejano e música espiritual, foi altura para a última atividade do Terras Sem Sombra na Vidigueira.

O sol tímido, lá ia espreitando, e o vento fazia o frio parecer mais intenso, mas nada, nem as poucas horas de sono dormidas, impediram que dezenas de pessoas se encontrassem pela fresca na Barragem de Pedrogão.

A Barragem de Pedrogão fica a 23 km a jusante da Barragem de Alqueva e tem uma função importante na produção de energia elétrica. Porém, e como explicou Diogo Nascimento, diretor dos Serviços de Património da Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva, “é um obstáculo artificial que se criou no rio”. Conhecer o impacto que tem para as espécies que percorrem o Guadiana e como se conseguiu contornar essa barreira era o objetivo da visita.

Barragem Pedrogão Dam

Iniciámos o percurso na margem esquerda do Rio Guadiana, do lado de Serpa, e, subindo à barragem, fomos conhecer o elevador de peixes, construído exclusivamente para permitir a conectividade e a passagem de algumas espécies para montante. Depois, atravessando para a outra margem, caminhámos ao longo do curso de água e, já no concelho da Vidigueira, observámos tudo o que é geologia e afloramentos rochosos junto daquele troço do Guadiana.

Margens do Guadiana River

No final, o cansaço do fim de semana era muito, até pela agenda cheia, mas a Vidigueira apresentou-se com o melhor cartão de visita e o Terras Sem Sombra criou a vontade de ir conhecer outras aldeias e cidades do Alentejo.

Até 7 de julho se quiser pode fazê-lo. Aqui fica o programa e saiba que basta aparecer no local e hora marcada. Assistir ou participar no Terras Sem Sombra é gratuito!

Próximos eventos do programa Terras Sem Sombra

# 9-10 Fev.

Dia 9

[15:00] Oficina de Cante: Ao Encontro da Tradição Musical Alentejana

[21:30 – Musibéria] À Vol d’Oiseau: Aves e Biodiversidade no Repertório Pianístico – do Barroco ao Presente

Dia 10

[9:30] Bancos de Genes: As Raças Autóctones e o Genoma do Sobreiro

# 23 e 24 Fev.

Dia 23

[15:00] O Bom e o Mau Juiz: Alegorias da Justiça na Audiência de Monsaraz

[21:30 – Igreja de Nossa Senhora da Lago] A Ordem Natural das Coisas: Música Espanhola e Portuguesa dos Finais do Século XIX

Dia 24

[9:30] Interpretar a Paisagem: Reguengos de Monsaraz e o seu Hinterland

# 9 e 10 Mar.

Dia 9

[15:00] Pedras que Falam: Paisagens Megalíticas da Região de Alcântara

[19:00 – Igreja de Nossa Senhora de Rocamadour] Navegar é preciso: Charles Ives, João Bruno Soeiro e W. A. Mozart

Dia 10

[9:30] Em Águas do Tejo Internacional: Avifauna e Biodiversidade

# 23 e 24 Mar.

Dia 23

[15:00] Do Passado ao Futuro: Raízes Portuguesas de Olivença

[19:00 – Igreja de Nossa Senhora da Madalena] Uma Viagem Imaginada: Suítes Francesas para Viola da Gamba

Dia 24

[9:30] Jardins de Deus: A Serra de Alor e a Dehesa

# 6 e 7 Abr.

Dia 6

[15:00] A Cidade da Água: Chafarizes, Fontes e Poços Históricos de Beja

[21:30 – Igreja do Convento de São Francisco] Percursos Vitais: Trios de Pierre Jalbert e Franz Schubert

Dia 7

[9:30] Pela Rota dos Pastores: As Canadas Reais no Concelho de Beja

# 27 e 28 Abr.

Dia 27

[15:00] Confluências Raianas: Arte Popular e Arte Contemporânea em Elvas

[21:30 – Igreja de Nossa Senhora da Assunção (antiga Catedral)] Antonio de Cabezón: Itinerários pela Europa ao Serviço do Rei

Dia 28

[9:30] Resistir ao Invasor: O Jacinto-de-água e a Bacia do Guadiana

# 4 e 5 Mai.

Dia 4

[15:00] No País de Fialho de Almeida: Lugares e Memórias do Autor d’Os Gatos

[21:30 – Igreja Matriz de São Vicente] Coração Viajante: Canções de Amor e de Embalar no Oriente e no Ocidente

Dia 5

[9:30] Tesouros da Terra: Geologia e Castas Tradicionais em Cuba

# 11 e 12 Mai.

Dia 11

[15:00] Património do Tempo: A Villa do Monte da Chaminé e a Romanização no Baixo Alentejo

[21:30 – Villa Romana do Monte da Chaminé] A Música como Passaporte: Um Roteiro Magiar

Dia 12

[9:30] Vizinhos Discretos: Insectos e Sustentabilidade nos Campos de Ferreira

# 25 e 26 Mai.

Dia 25

[15:00] A Montanha Mágica: História e Histórias de São Martinho das Amoreiras

[21:30 – Igreja Paroquial de São Martinho] Noutras Margens: Obras Americanas e Europeias para Flauta

Dia 26

[9:30] Mãe-d’Água: Expedição à Serra da Vigia

# 8 e 9 Jun.

Dia 8

[18:30 – Cine-Teatro Municipal] Convite à Viagem: Espaços, Memórias e Tempos do Canto Lírico

[21:30] Ler o Céu e as suas Tradições: Da Astrologia à Astrofísica

Dia 9

[9:30] Todos por Um: Prevenção e Combate do Fogo na Raia

# 22 e 23 Jun.

Dia 22

[15:00] Corte de Aldeia: O Palácio da Carreira

[21:30 – Igreja Matriz de Santiago Maior] Onde está a Minha Casa? Tradição e Vanguarda na Música Checa (Séculos XIX-XX)

Dia 23

[9:30] Mansa Corrente: O Curso Médio do Rio Sado

# 6 e 7 Jul.

Dia 6

[15:00] No Olho do Cíclope: O Farol do Cabo de Sines

[21:30 – Castelo] Longe, mas perto: Identidades Musicais Contemporâneas nos EUA

Dia 7

[9:30] Nereu e Proteu: Vigiar e Cultivar o Mar

Consulte aqui toda a programação.

O que achou do festival Terras Sem Sombra? Gostava de participar? Qual o festival que mais gostou de ir até hoje? Conte a sua experiência na caixa de comentários em baixo.

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Conhecer um dos melhores pães do Alentejo, ouvir música numa igreja e sentir de perto as margens do Guadiana foi o desafio lançado pelo festival Terras Sem Sombra. Uma experiência cheia de tradições e histórias contadas pelas gentes da Vidigueira.

Nota da Surfer Girl: O Surfer Girl On The Move viajou a convite do Terras Sem Sombra. Porém, todo o relato, opiniões e imagens são da minha autoria e refletem de forma sincera e isenta toda a experiência.

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